Fechou o livro suavemente; há quase três semanas que ele embelezara-lhe os serões, por norma, risíveis e monótonos. Cerrou os olhos, de onde fugiu um lágrima apressada, e recostou-se na velha poltrona de pele. E suspirou. Um lamento melancólico chamado saudade. Afinal, findara uma relação de amizade com um companheiro ímpar. Um livro? Sim, um livro!Tal como as pessoas, único e inimitável.
Abriu os olhos. Devagarinho. Olhou à volta e sobressaltou-se! A saleta estava profundamente alterada. Toda ela era o cenário do capítulo último do livro . Para onde tinham ido os sofás, os armários, as mesas de apoio? Até o abajur grená da tia Natércia tinha desparecido. Agora, via uma enfermaria, de uma tonalidade branca que até cegava, onde dois amigos acabavam de separar-se para sempre. Apertou os olhos com a ponta dos dedos e voltou a abri-los. Ah! Afinal estava lá tudo! A pequena sala voltou à forma original. Ela é que ainda não tinha sido capaz de sair da história que a preencheu por completo, durante as últimas semanas.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Alegria
Na Rua dos Alegres vive um homem sem sono. Procura o motivo da felicidade dos vizinhos, enquanto estes dormem. Ele, que sofre de insónia permanente, também não consegue alegrar-se, seja com o que for. Ou com quem for. Dizem-lhe que é de não dormir há tanto tempo. Não! Ele sabe. É triste porque gastou toda a alegria que o Criador lhe deixou de herança vital.
Quando essa tragédia o visitou, deixou de dormir. O homem sem sono nunca imaginou que a alegria poderia gastar-se. Hoje, pela noite, vai descobrindo, de casa em casa, a triste realidade da alegria. Gastou a alegria, resta-lhe a insónia. E a cínica coincidência de morar na Rua dos Alegres.
Quando essa tragédia o visitou, deixou de dormir. O homem sem sono nunca imaginou que a alegria poderia gastar-se. Hoje, pela noite, vai descobrindo, de casa em casa, a triste realidade da alegria. Gastou a alegria, resta-lhe a insónia. E a cínica coincidência de morar na Rua dos Alegres.
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