sábado, 6 de outubro de 2012

Inventar

  Há quem invente passados. Grandiosos, eloquentes, heróicos e exímios na arte da suprema felicidade. Todavia, há quem viva preso a um passado desesperante, incapaz de criar cenários enfeitados de cores garridas.
  Eu limito-me a inventar o futuro. Com papel,  lápis,  borracha,  régua e  esquadro, vou riscando e apagando,  riscando novamente. Quando estiver cansado, farto, saturado de riscar e apagar, algo ficará estampado na folha. Um futuro inventado, pois claro. Veremos se coincide com a realidade.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fuga

  Refugio-me no velho lampião que enche de luz mortiça o passeio da cidade; estou aqui dentro, no cerne, onde se dá a explosão que espalha a preciosa luminosidade, apesar de parca, ficando a noite com mais fulgor, com mais vida.
  Quando fugi das trevas, abomináveis trevas!, eu que amo a noite, que melhor lugar podia escolher do que o abrigo deste velho candeeiro de rua? 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Partida

  De um casamento garboso a uma ruptura sem indulgência, passaram pouco mais de meia dúzia de anos. Uma história que perdeu o enredo e, estranhamente, ou não, nenhum deles conseguiu perceber quem deixou quem, tema aflorado por ambos, diversas vezes, nas rodas de amigos, após ter-se finado a vida a dois.
  Ela gracejava : " mostrei o cartão vermelho a um árbitro". De facto, o homem exercia essa actividade desportiva, no futebol. Ele, tirando de todas as algibeiras o orgulho masculino, pusera fim a uma relação que já não o era - dizia.
  Hoje, ao fim de dez anos, habitam  lugares vizinhos, em cada margem de um rio estreito, a que falta uma ponte para estabelecer união. De noite, as primeiras luzes que se avistam, são as das suas casas, majestaticamente erigidas em cada lado; perto, muito perto da vista, mas longe do resto, o que quer que isso seja. Porque não há ponte. Portanto, só indo de barco poderão visitar-se. Não há barco, mas há um óptimo argumento.

Chegada

  O enorme casario sorriu, derramando, em simultâneo, uma lágrima marota. Ele estava a chegar e , desta vez, não era para uma visita, mas para tomar posse de um lugar que era seu. E ficar. Até ao fim.
  Ninguém soube explicar a razão. Chegou e ninguém o viu! Poderá ter-se escondido no sol e, quando a lua chegou, ter dado um salto para o meio das casas, instalando-se, num ápice, na sua. Ou , simplesmente, o casario estava adormecido sob o imenso calor e não deu conta. O certo é que ele  chegou. E, agora, todos sabem. Porque viram as saudades que trouxe, abandonadas à porta de casa. A pressa de chegar era tanta que esqueceu-se de guardá-las na arrecadação.