quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sombra

                                                                                                foto de Jotaesse

 
   Alguém duvidará de que a Sombra alimenta um amor incondicional pelo Sol? Certamente que não. Amor?  Sim amor, ou, vá lá, uma espécie de amor que poucos entendem. Mas será esse amor correspondido? Ora aí está o drama: não, não é. O Sol é um astro egoísta e , se pudesse, não dava qualquer oportunidade à sua leal Sombra de aproximar-se.
  Um destes dias, em que o verão e o inverno andaram em discussão acesa, quase chegando a agredirem-se, o Sol aproveitou a confusão e fugiu à Sombra; esta não o viu durante vários dias. Só por haver dia e noite ela sabia que o seu amado continuava vivo.
  Finalmente, encontrou-o. Brilhava cheio de satisfação; no seu rosto nédio, os olhos miravam cansaço e o nariz esfolado e vermelhusco. Cometeu excessos, afiançavam os outros astros que o conheciam. Alguns diziam tê-lo visto a entrar em vias pouco aconselháveis.
  Ao falar com ele, a Sombra percebeu que ainda estava meio ébrio; aproximando-se, fedia a perfume feminino barato. "Andou sexo por ali" - pensou a companheira de sempre.
  A Sombra, sombria, vestiu luto e fechou o rosto. E passou a andar sempre atrás do Sol. Para toda a parte. Não o largou mais. É a sua Sombra. E, por estranho que pareça, ambos parecem satisfeitos.
   
 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pressa



 
  Estava sentada à mesa do café; pelos gestos e pela inquietação que o seu rosto ostentava, parecia sozinha, mas não estava... não podia estar! Algo haveria de causar-lhe tanta perturbação.
  Os dedos finos e graciosos deambulavam entre a chávena vazia e o maço dos cigarros. Quanto ao olhar, parecia um sensor de movimentos, num tom azulado, que varria o espaço entre a porta e a mesa.
  Ele veio!
  Beijaram-se apressadamente e sairam.
  Devido à pressa, esqueceu a caixa dos cigarros em cima da mesa.
  Um jovem que transportava, preso aos pulsos, o desemprego, deixou a sua mesa, logo atrás, pegou no tabaco que ela deixara e encaminhou-se para a porta. Assim que chegou à rua, quis tirar um cigarro. Não conseguiu. Um grito vindo do fundo da alma ecoou e quer os transeuntes quer os que estavam dentro do café dirigiram-se ao  jovem. Este largara o maço, empalidecera e tremia descontroladamente, encostado à vidraça da montra do café. O seu olhar era de pânico e focalizava-se naquela pequena embalagem de tabaco que, agora, jazia no passeio; de vez em quando, apontava, mas não conseguia articular palavra.
  Uma dona de casa, nada desesperada, de meia-idade, encostou o seu carrinho das compras à parede e com o desembararço próprio de quem já viveu muito, pegou no maço, olhou o interior e disse com a calma natural das pessoas maduras:
  - Tem lá dentro um Futuro Hipotecado. Mas está morto. Este já não faz mal a ninguém...

Adiado




  Entre montanhas de Esperanças vai correndo, pachorrento, o Rio da Felicidade. O Mar das Concretizações, lá longe, espera-o com ansiedade disfarçada. De pé, nas margens próximas da foz, as pessoas lançam-lhe os Sonhos, como quem atira a linha à espera que o peixe pique.
  No céu, nuvens ameaçadoras pintam a alegria em tons de cinza; e as gaivotas rumam a terra em voos rasantes aos campanários, buscando outras cores.
  E as pessoas recolhem o Sonhos, que permanecem adiados à espera de melhores dias. Tons garridos virão com certeza. As pessoas acreditam sempre.

 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Rua



  Cansada de ser pisada, encolheu-se e voltou para trás. Quem? A Rua. Sim, a Rua...aquela.
  Como um rio que desaguava numa extensa e ampla avenida, a Rua deixou de ser a mesma. Agora, nem Rua é. Foi tão grande a revolta  que deixou à vista as pedras e terra sobre as quais assentou durante tantos anos. Uma desolação. Um drama.
  Quando nem as ruas resistem à multiplicidade dos excessos, é porque quem as fez também está desejoso de voltar atrás e começar tudo de novo. E muito melhor do que anteriormente, claro! Outras Ruas poderão seguir o exemplo.