O passeante construiu um passeio; longo, rectilíneo, colorido, plano. Para
fazer o que mais gostava, com conforto e rapidez: o périplo diário. Que não
tinha princípio, mas sempre um fim. O fim que têm, por exemplo, todos os
esquiços. Tenham sido de Picasso, Van Gogh, ou do teu primo Armando. Como a
viagem do passeante. No dia seguinte, de nada valia a do dia anterior.
Todas as madrugadas, o vadio – sim, era um vadio, sem eira nem beira –
martelava a calçada com os pés, protegidos por uma velhas botas de couro. E o
fim, o mesmo também, sempre. O mesmo. Ir ao rio despejar as ilusões que lhe
enchiam as mãos calejadas de sofrimento.O passeio, que ele construiu antes de ser vadio, tornou-se num ogre anti-social. De repente! Vão lá a razão e destino saber porquê. Revoltou-se. Contra o criador. E desfez-se em barro movediço, tão difícil de pisar.
O passeante ficou sem a única obra de que gostava. Pior. Ficou sem caminho para o rio. E as ilusões encheram-lhe as mãos. Procurou guardá-las nos bolsos. Na imaginação. Nos sonhos. Debalde! Eram tantas, tantas, que acabou sepultado nelas, como se fossem terra fria.
E deixou de precisar do passeio. Que fora feito com tanto amor.
( Foto de J.S.)