sábado, 17 de novembro de 2012

Passeio


   O passeante construiu um passeio; longo, rectilíneo, colorido, plano. Para fazer o que mais gostava, com conforto e rapidez: o périplo diário. Que não tinha princípio, mas sempre um fim. O fim que têm, por exemplo, todos os esquiços. Tenham sido de Picasso, Van Gogh, ou do teu primo Armando. Como a viagem do passeante. No dia seguinte, de nada valia a do dia anterior.  
   Todas as madrugadas, o vadio – sim, era um vadio, sem eira nem beira – martelava a calçada com os pés, protegidos por uma velhas botas de couro. E o fim, o mesmo também, sempre. O mesmo. Ir ao rio despejar as ilusões que lhe enchiam as mãos calejadas de sofrimento.
  O passeio, que ele construiu antes de ser vadio, tornou-se num ogre anti-social. De repente! Vão lá a razão e destino saber porquê. Revoltou-se. Contra o criador. E desfez-se em barro movediço, tão difícil de pisar.
   O passeante ficou sem a única obra de que gostava. Pior. Ficou sem caminho para o rio. E as ilusões encheram-lhe as mãos. Procurou guardá-las nos bolsos. Na imaginação. Nos sonhos. Debalde! Eram tantas, tantas, que acabou sepultado nelas, como se fossem terra fria.
                                                                                         
 E deixou de precisar do passeio. Que fora feito com tanto amor.
( Foto de J.S.)