quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Parabéns!

Ausência

   A ausência é uma das piores presenças; pior mesmo, só a perda. Esta é, a perda, uma presença sem presente. Cheiínha de passado e com o futuro interrompido, ou, quiçá, situado numa galáxia de sinal contrário à eternidade; logo, impossível de encontrar. Porque o impossível existe. Ninguém sabe onde está, mas tem cheiro e faz sombra.
  Na minha ausência, o presente multiplicou-se. Complicou-se? Também, se calhar! E o futuro continua nas estrelas! Agora, tenho de agarrar com os dedos, como se fossem garras, as estrias do velho presente. E puxar, puxar. Até sangrar. Por dentro e por fora.
  
  

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Fadista




  Na casa ao lado da minha, mora uma fadista. Estranha fadista, quer dizer, as fadistas são sempre estranhas, mas esta era mais estranha ainda.
  Não sei onde canta nem quando. E não vale a pena perguntar:  não responde. Vim a saber que tem vergonha de dizer. Porquê? Porque canta o fado com o olhar. Logo, nem todos conseguem ouvir, por muito perto que estejam.
  Ontem, quando a encontrei, alta ia a noite, sentada na soleira da porta, triste, decidi sentar-me ao seu lado, sobre a pedra fria.
  A fadista chorava. Lágrimas grossas, matizados com o azul da maquilhagem, escorriam-lhe pelo rosto até desmaiarem no passeio. Chegadas aí, ganhavam vida. E eu não ouvia, mas via.
  Via o fado que a minha vizinha cantava com o olhar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Funeral



  O Homem Que Não Tinha Amigos morreu.
  Foi a homicida Solidão! Num dia frio de Novembro entrou-lhe, sorrateira, nos neurónios e trocou o polo positivo com o negativo. Curto-circuito! E foi o fim.
  Não tinha amigos o Homem Que Não Tinha Amigos, pelo que o funeral não foi um festim e momento de reencontro dos desavindos. Como é costume.
  Foi, realmente, um funeral.
  O padre, o seu ajudante, ou sacristão, como preferirem, e uma filha que nem é "de sangue" foram os assistentes e testemunhas da cerimónia.
  E quando o féretro, na carreta, avançava rumo ao cemitério, passando em frente à casa que fora do Homem Que Não Tinha Amigos, junto à porta, sentados, com uma pose séria e ar sorumbático, em vez da habitual arrogância e do cinismo dos seus focinhos, os tês gatos que foram dele: o "amarelo", o "mesclas" e o "negrão".
  Pareciam querer dizer adeus ao dono. Um adeus, este sim, eterno.
  O padre, o sacristão e a filha que não era "de sangue".
  E os três gatos.
  O Homem Que Não Tinha Amigos foi a enterrar.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sombra

                                                                                                foto de Jotaesse

 
   Alguém duvidará de que a Sombra alimenta um amor incondicional pelo Sol? Certamente que não. Amor?  Sim amor, ou, vá lá, uma espécie de amor que poucos entendem. Mas será esse amor correspondido? Ora aí está o drama: não, não é. O Sol é um astro egoísta e , se pudesse, não dava qualquer oportunidade à sua leal Sombra de aproximar-se.
  Um destes dias, em que o verão e o inverno andaram em discussão acesa, quase chegando a agredirem-se, o Sol aproveitou a confusão e fugiu à Sombra; esta não o viu durante vários dias. Só por haver dia e noite ela sabia que o seu amado continuava vivo.
  Finalmente, encontrou-o. Brilhava cheio de satisfação; no seu rosto nédio, os olhos miravam cansaço e o nariz esfolado e vermelhusco. Cometeu excessos, afiançavam os outros astros que o conheciam. Alguns diziam tê-lo visto a entrar em vias pouco aconselháveis.
  Ao falar com ele, a Sombra percebeu que ainda estava meio ébrio; aproximando-se, fedia a perfume feminino barato. "Andou sexo por ali" - pensou a companheira de sempre.
  A Sombra, sombria, vestiu luto e fechou o rosto. E passou a andar sempre atrás do Sol. Para toda a parte. Não o largou mais. É a sua Sombra. E, por estranho que pareça, ambos parecem satisfeitos.