segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Zanga

  Zangados, o sol e a lua, ameaçam-se. Lançam as mais ferinas expressões. Há burburinho sobre as nossas cabeças, sem darmos conta. Todos sabem que, entre os dois, há uma paixão irrefreável, não assumida. Só nos dias dos santos eclipses, é que trocam beijos à socapa; ambos são demasiados orgulhosos, não confessam nem saciam a paixão. E, por vezes, há uma estrelita mais atrevida, um cometa marialva, que "encostam" demasiado. Pronto, o ciúme aparece veloz, vindo do nada.
  E quando desalinham, perdem o encanto, o feitiço. E discutem de língua afiada. Sentindo a desordem emanar, as nuvens ocorrem, para ajudar a pôr fim à luta de palavras entre a lua e o sol.
  E quem sofre são os pescadores do molhe, que ficam sem raios de sol, sem luar e com imensas nuvens, que turvam o ambiente e dificultam a tarefa da sua luta com os peixes.

Amor

  Mão na mão, percorremos a distância, iguais aos que correm atrás dos sonhos. Viemos de longe. Tínhamos fome e sede. Sentados à mesa, nas cadeiras metálicas e inconfortáveis da esplanada, serviram-nos cerveja, pão e azeitonas. Todavia, não comemos com o entusiasmo que acompanha os que  têm fome. Estávamos ansiosos. Apressados. Olhámos para cima;  na varanda do primeiro andar estava, ali mesmo, o motivo de tanta inquietação. Da nossa inquietação. Que fez-nos comer rapidamente e mal.
  Pendurado na varanda, como um gato. Sorria . O Amor. Era ele que atirava pedaços de pressa contra nós. Comemos e bebemos com a rapidez dos desesperados a fugir do desespero. E subimos ao primeiro piso. Queriamos agarrar o Amor. Juntá-lo a nós.
  Tanta era a rapidez e a ansiedade que, ao pegarmos no Amor, na varanda, descuidámo-nos e deixámo-lo cair. Estatelou-se lá em baixo, junto ao pedal de uma bicicleta de criança que estava encostada à parede. E partiu-se todo!
  E nós ficámos debruçados, em agónico choro, a ver um Amor morrer, à porta de um café de estrada.