quinta-feira, 27 de junho de 2013

Fadista




  Na casa ao lado da minha, mora uma fadista. Estranha fadista, quer dizer, as fadistas são sempre estranhas, mas esta era mais estranha ainda.
  Não sei onde canta nem quando. E não vale a pena perguntar:  não responde. Vim a saber que tem vergonha de dizer. Porquê? Porque canta o fado com o olhar. Logo, nem todos conseguem ouvir, por muito perto que estejam.
  Ontem, quando a encontrei, alta ia a noite, sentada na soleira da porta, triste, decidi sentar-me ao seu lado, sobre a pedra fria.
  A fadista chorava. Lágrimas grossas, matizados com o azul da maquilhagem, escorriam-lhe pelo rosto até desmaiarem no passeio. Chegadas aí, ganhavam vida. E eu não ouvia, mas via.
  Via o fado que a minha vizinha cantava com o olhar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Funeral



  O Homem Que Não Tinha Amigos morreu.
  Foi a homicida Solidão! Num dia frio de Novembro entrou-lhe, sorrateira, nos neurónios e trocou o polo positivo com o negativo. Curto-circuito! E foi o fim.
  Não tinha amigos o Homem Que Não Tinha Amigos, pelo que o funeral não foi um festim e momento de reencontro dos desavindos. Como é costume.
  Foi, realmente, um funeral.
  O padre, o seu ajudante, ou sacristão, como preferirem, e uma filha que nem é "de sangue" foram os assistentes e testemunhas da cerimónia.
  E quando o féretro, na carreta, avançava rumo ao cemitério, passando em frente à casa que fora do Homem Que Não Tinha Amigos, junto à porta, sentados, com uma pose séria e ar sorumbático, em vez da habitual arrogância e do cinismo dos seus focinhos, os tês gatos que foram dele: o "amarelo", o "mesclas" e o "negrão".
  Pareciam querer dizer adeus ao dono. Um adeus, este sim, eterno.
  O padre, o sacristão e a filha que não era "de sangue".
  E os três gatos.
  O Homem Que Não Tinha Amigos foi a enterrar.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sombra

                                                                                                foto de Jotaesse

 
   Alguém duvidará de que a Sombra alimenta um amor incondicional pelo Sol? Certamente que não. Amor?  Sim amor, ou, vá lá, uma espécie de amor que poucos entendem. Mas será esse amor correspondido? Ora aí está o drama: não, não é. O Sol é um astro egoísta e , se pudesse, não dava qualquer oportunidade à sua leal Sombra de aproximar-se.
  Um destes dias, em que o verão e o inverno andaram em discussão acesa, quase chegando a agredirem-se, o Sol aproveitou a confusão e fugiu à Sombra; esta não o viu durante vários dias. Só por haver dia e noite ela sabia que o seu amado continuava vivo.
  Finalmente, encontrou-o. Brilhava cheio de satisfação; no seu rosto nédio, os olhos miravam cansaço e o nariz esfolado e vermelhusco. Cometeu excessos, afiançavam os outros astros que o conheciam. Alguns diziam tê-lo visto a entrar em vias pouco aconselháveis.
  Ao falar com ele, a Sombra percebeu que ainda estava meio ébrio; aproximando-se, fedia a perfume feminino barato. "Andou sexo por ali" - pensou a companheira de sempre.
  A Sombra, sombria, vestiu luto e fechou o rosto. E passou a andar sempre atrás do Sol. Para toda a parte. Não o largou mais. É a sua Sombra. E, por estranho que pareça, ambos parecem satisfeitos.
   
 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pressa



 
  Estava sentada à mesa do café; pelos gestos e pela inquietação que o seu rosto ostentava, parecia sozinha, mas não estava... não podia estar! Algo haveria de causar-lhe tanta perturbação.
  Os dedos finos e graciosos deambulavam entre a chávena vazia e o maço dos cigarros. Quanto ao olhar, parecia um sensor de movimentos, num tom azulado, que varria o espaço entre a porta e a mesa.
  Ele veio!
  Beijaram-se apressadamente e sairam.
  Devido à pressa, esqueceu a caixa dos cigarros em cima da mesa.
  Um jovem que transportava, preso aos pulsos, o desemprego, deixou a sua mesa, logo atrás, pegou no tabaco que ela deixara e encaminhou-se para a porta. Assim que chegou à rua, quis tirar um cigarro. Não conseguiu. Um grito vindo do fundo da alma ecoou e quer os transeuntes quer os que estavam dentro do café dirigiram-se ao  jovem. Este largara o maço, empalidecera e tremia descontroladamente, encostado à vidraça da montra do café. O seu olhar era de pânico e focalizava-se naquela pequena embalagem de tabaco que, agora, jazia no passeio; de vez em quando, apontava, mas não conseguia articular palavra.
  Uma dona de casa, nada desesperada, de meia-idade, encostou o seu carrinho das compras à parede e com o desembararço próprio de quem já viveu muito, pegou no maço, olhou o interior e disse com a calma natural das pessoas maduras:
  - Tem lá dentro um Futuro Hipotecado. Mas está morto. Este já não faz mal a ninguém...

Adiado




  Entre montanhas de Esperanças vai correndo, pachorrento, o Rio da Felicidade. O Mar das Concretizações, lá longe, espera-o com ansiedade disfarçada. De pé, nas margens próximas da foz, as pessoas lançam-lhe os Sonhos, como quem atira a linha à espera que o peixe pique.
  No céu, nuvens ameaçadoras pintam a alegria em tons de cinza; e as gaivotas rumam a terra em voos rasantes aos campanários, buscando outras cores.
  E as pessoas recolhem o Sonhos, que permanecem adiados à espera de melhores dias. Tons garridos virão com certeza. As pessoas acreditam sempre.

 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Rua



  Cansada de ser pisada, encolheu-se e voltou para trás. Quem? A Rua. Sim, a Rua...aquela.
  Como um rio que desaguava numa extensa e ampla avenida, a Rua deixou de ser a mesma. Agora, nem Rua é. Foi tão grande a revolta  que deixou à vista as pedras e terra sobre as quais assentou durante tantos anos. Uma desolação. Um drama.
  Quando nem as ruas resistem à multiplicidade dos excessos, é porque quem as fez também está desejoso de voltar atrás e começar tudo de novo. E muito melhor do que anteriormente, claro! Outras Ruas poderão seguir o exemplo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Peso


  O homem tinha o olhar perdido no horizonte e o rosto vincado pelo tempo e pela má sorte. Chegou afogueado, talvez do cansaço;  respirou com alívio ao descarregar no solo o saco de serapilheira que trazia às costas. Pousou-o mesmo em frente ao recepcionista da pensão.
  - Parece pesado, senhor! É a sua bagagem?
  - Não - respondeu o homem - é um amor impossível.
  - Como? Amor impossível?!
  - Sim.
  - Mas...mas...vai-me desculpar..mas não há amores impossíveis. Os amores ou são ou não são. Não acha? - Argumentou o recepcionista.
  -  Este existe. É meu. Está aqui, vê? E é pesado...
  - Então, e que vai fazer com ele, senhor?
  - Ainda não sei. Vai andando nas minhas costas. Até descobrir uma forma de  desenvencilhar-me dele. É cá um peso!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Sorte



   E a Sorte virou-lhe as costas. Foi embora.
  Deixou a voz de falsete colada às paredes ansiosas; depois de lançar-lhe uma mirada míope e carregada de desdém, partiu.
  Ele sempre a desejou, à Sorte, com a força de todos os sentidos.
  Femeeiro como é, até esqueceu a frigidez e torpeza da figura que todos querem, sem sequer lhe conhecerem o empinado nariz; que está pendurado num rosto de sorrisos omissos, como num recital de doidos.
  Ego absurdo, vida celibatária, atirou-lhe, como quem liberta um flato:
   - Vou para a enseada dos sonhos adiados. Adeus!
  Ele ficou, ali, parado, a vê-la partir. O desejo esfumava-se com a tortura da despedida consentida.
   - Então, é aquilo a Sorte ?! - Murmurou  com resignação.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cores



  Quando o sujeito passa, quem para ele olhe, fica pintado das mais diversas cores. Mulheres, quase todas; homens, muitos. Acabam o dia com o rosto tingido e com a roupa a adoptar colorido diferente do que ostentava de manhã ao sair do armário.
 Mais importante, muito mais!, do que a coloração superficial é a profundidade que as cores atingem. Quem perder alguns minutos a olhá-lo atentamente, até a alma, habitualmente escura ou pintada de branco sujo, ganha uma paleta de mil cores. E, assim, dela irradia uma energia capaz de atraír aquilo a que os optimistas chamam felicidade.
  Quem for atrás dele, pelas ruas estreitas, tão do seu agrado, aperceber-se-á da magia das cores que dele brotam como a água de fontes. Embelezando paredes, passeios, chãos e flores. Só quando o sol se põe, elas vão esbatendo, esbatendo, até desaparecerem.
  Depois, regressa a pálida monotonia. Dias, meses, anos.
  Até ao dia em que ele volte. E volta sempre. Pode demorar , mas volta.

Georges


Até sempre, Georges.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Passado



  A voz cavernosa do Passado perseguia-o; todos os dias, a todas as horas, estivesse acordado ou a dormir.
  Sussurrava-lhe ao ouvido: "O Futuro não existe sem mim!".
  E na imensidão das noites sombrias, ele tentava matá-lo. Ao Passado. A tiro, à faca e até ao esquecimento. Nada!
  O Passado sabia esconder-se muito bem, era perito em ficar atrás, escudando-se em Desejos defeituosos, Ilusões histéricas ou Sonhos ensonados.
  Ambos sabiam que teriam de ajustar contas. E, ao invés do que o Passado dizia, ele teria de o destruir, de o esmagar, para seguir o seu rumo. Até lá, não veria o Futuro. Mas não queria viver sempre num Presente condicional.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Verão




  De olhos fixos no sol que aparecia devagar, partilhámos o silêncio; e ouvimos o som ausente de um violão sem cordas.
  Quando o meu olhar encontrou o teu, o ruído envolveu-nos ainda com mais intensidade.
  Calada, chamaste-me; parado, fui ter contigo.
  Assim nasceu um belo dia de verão.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Arrepio

Foi quando passei as pontas dos meus dedos trémulos ao longo das tuas costas nuas que recebi a ternura melancólica do fim de tarde de verão, ainda  vivia eu num doloroso inverno. O sol ia-se escondendo, tímido e sonhador, atrás do horizonte. Então percebi: a lua era, afinal, apenas um pedaço do nosso céu.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

50 euros




  Teotónio está internado num hospital; não ouve, não fala, não vê. O soro vai alimentando um ser esquálido. Primeiro, a luxúria de possuir, depois a enfermidade frustrante da perda.
  Muitos são os motivos, habitualmente acidentais, que podem colocar um indivíduo, antes varonil, neste estado apoplético.
  Com Teotónio, foi uma situação tão curiosa quanto inacreditável que o levou a um deficit de saúde, quiçá irreversível.
  A partir de determinado momento, no quintal do café de que é proprietário, numa pacata vila transmontana, começaram a aparecer notas de 50 euros debaixo das pedras. Muitas. Cada vez que Teotónio dava um pontapé numa pedra, lá apareciam as notas, novinhas em folha, com se tivessem saído nessa altura de qualquer caixa de banco. Sempre. E cada vez mais.
  Teotónio todos os dias guardava uma mancheia delas em escaninhos inacessíveis a estranhos. Foi gastando. Foi colhendo. E guardando. E melhorando a sua vida e o seu café. Quando faltava o dinheiro, fosse para o que fosse, Teotónio ia ao quintal e com um movimento dissimulado, pontapeava uma das milhares de pedra que por ali havia. As notas de 50 euros saltavam. Viçosas.
  De repente, a incalculável fortuna tornou-se um pesadelo...
  As notas começaram a apresentar uma cor estranha e uma textura quebradiça. Foi o primeiro sintoma de que algo não estava bem.
  Depois, no quintal, as alfaces secaram, as couves perderam as folhas e os frutos cairam , podres, das árvores A situação agudizou-se quando a água para a rega ficou inquinada, com uma tez superficial escura.
  Chamado um especialista, a quem Teotónio contou a sua fortuna e desgraça, avançou  o veredicto: o papel das notas estava a espalhar um vírus que destruía todos os produtos agrícolas e os lençóis de água.
  Teotónio teria de tomar uma decisão. Mas qual? O que antes era alegria, ensombrou-se e o homem acabou por sucumbir à impotência de encontrar soluções.
  Até que, doente, teve de ser internado. À espera sabe-se lá de quê.
  E as notas vão crescendo debaixo das pedras, destruindo tudo em redor.
  Uma desgraça que continua.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Cores



                                                       ( Foto J.S.)

 
  Que vaidosas são as cores! Misturam-se, sobrepõem-se, anulam-se, sempre em busca de um tom mais bonito. Porquê  censurá-las? São iguais ao que tem existência real: em permanente estado de insatisfação. O que não possuem é sempre mais valioso e determinante do que o conteúdo do seu opúsculo vital.
  E não sabem elas que as cores mais bonitas são as que vivem na nossa imaginação.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Refúgio

 
                                         ( Foto J.S)


  Vinha com a pressa dos heróis; estacionou a moto em frente às lombadas e olhou em volta, preocupado, enquanto tirava o capacete. Os livros miraram-no com desdém, pois nunca viram com bons olhos estas fugas esporádicas. Personagem que se preze, jamais abandona a sua história.
  Mas aquele herói é jovem; e desde que herdou a moto do avô, nunca mais teve sossego.
  Nessa noite parecia perturbado em demasia. Lia-se nos seus gestos e no olhar de rima fácil. Na confusa e atabalhoada procura da sua capa.
  Tão confusa foi, que o levou ao equívoco. Na apressada tentativa de regressar à história, atirou-se para dentro do"Solitário". Será sempre um bom refúgio. Sem dúvida.
   O pior vai ser quando o Ionesco der com ele!

 

domingo, 21 de abril de 2013

Vê...

A gente vê.
Porque hoje está um dia de sol lindo.
A gente vê. E, com esforço, vai sorrindo.
A gente vê muito melhor. Com o sol lindo.
Certas pessoas sentadas nas mesas,
das estrutras centrais dos partidos políticos.
A gente vê. E conhece.
A incompetência e inqualidade.
"Lambabotice" e incapacidade,
de apresentar projectos, solucões
...
ideias claras
a pensar nas populações.
Mas não!
A gente vê-os e a gente não acredita.
São fanáticos da política,
dos partidos de clientes. Ena tantos!!!
Vamos votar neles?
Claro que não! A gente já não vai nisso!
Vamos votar em branco.
Nã vamos encher chouriço.
Parece poesia?
Pode. Mas não é.
É um grito. Luta. A quem nos explora, insubmissão.
Vais votar em algum partido?
Claro que NÃO!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Confuso

Encontrei-te de madrugada, numa esquina onde se filtra o tempo. Queria envolver o teu corpo com os meus braços, mas só me lembro de ouvir-te dizer: "vai-te embora e toma um café bem forte...."
( Foto de J.S.)