Vestiu-se de branco, virou costas, partiu. Disse-me que ia passar o Fim de Ano a um lugar alegre, com gente animada. Que queria acção, imaginação; estava farta de abúlicos.
Eu, de pijama, enterrado no sofá, com um livro nas mãos, observei. Telefonou a um laparoto que a veio buscar à porta de casa; desceu e foi avenida abaixo de braço dado ele. Antes de pegar na carteira, também branca, e dizer adeus, deu-me um beijo na testa. Desejou-me Bom Ano. Estava feliz. Eu, não. Por tudo e por nada.
Sem ela, a minha existência não faz sentido. É como um mar sem água, um sol escuro, um nevoeiro sólido. Uma porta fechada, da qual se perdeu a chave.
Mas ela vai voltar, eu sei. Volta sempre!
Quando estiver cansada de festa e de gente fútil, regressará. Mais interessante do que nunca. Para se entregar a mim. Corpo e alma.
Afinal, é só mais uma vez. Só mais uma, entre tantas. Em que vira costas e vai. Mas volta sempre. Mais tarde ou mais cedo. Mas volta.
Que seria de mim sem a minha INSPIRAÇÃO?
(Foto de J.S.)
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Minhocar
Escondem-se das pombas e de todos os animais que transportem dignidade no olhar. Contornam as bazucas, percorrem Ceca e Meca, sempre de costas voltadas para o sol; enrolam-se sobre si próprias. Claro, tanta flexibilidade é fruto da inexistência de coluna vertebal! Pois assim a minhoca chegou aonde quis.
A terra, húmida e fria, parece ter sido feita para ela dar azo às convicções simuladas.
A terra é dela.
E o mundo não será um grande amontoado de terra, cercado pelo mar?
( Foto Google)
A terra, húmida e fria, parece ter sido feita para ela dar azo às convicções simuladas.
A terra é dela.
E o mundo não será um grande amontoado de terra, cercado pelo mar?
( Foto Google)
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Espreitar
Entre o remoinho das luzes, nas centenas de centelhas que dão brilho ao mundo, alguém espreita através de um furo que demorou uma eternidade a construir. Encosta-lhe o olho, ansioso.
As marionetas movem-se, agarradas por engonços e fios coloridos.
Um gigante, com gravata de seda e fato Armani, puxa-as, orientando-lhes caminho, actos e pensamentos.
O que espreita consegue ver o tal mundo; de fora para dentro. E não gosta do que vê.
Se gostasse, por certo não encolheria os ombros, após um esgar de resignação.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
Passeio
O passeante construiu um passeio; longo, rectilíneo, colorido, plano. Para
fazer o que mais gostava, com conforto e rapidez: o périplo diário. Que não
tinha princípio, mas sempre um fim. O fim que têm, por exemplo, todos os
esquiços. Tenham sido de Picasso, Van Gogh, ou do teu primo Armando. Como a
viagem do passeante. No dia seguinte, de nada valia a do dia anterior.
Todas as madrugadas, o vadio – sim, era um vadio, sem eira nem beira –
martelava a calçada com os pés, protegidos por uma velhas botas de couro. E o
fim, o mesmo também, sempre. O mesmo. Ir ao rio despejar as ilusões que lhe
enchiam as mãos calejadas de sofrimento.O passeio, que ele construiu antes de ser vadio, tornou-se num ogre anti-social. De repente! Vão lá a razão e destino saber porquê. Revoltou-se. Contra o criador. E desfez-se em barro movediço, tão difícil de pisar.
O passeante ficou sem a única obra de que gostava. Pior. Ficou sem caminho para o rio. E as ilusões encheram-lhe as mãos. Procurou guardá-las nos bolsos. Na imaginação. Nos sonhos. Debalde! Eram tantas, tantas, que acabou sepultado nelas, como se fossem terra fria.
E deixou de precisar do passeio. Que fora feito com tanto amor.
( Foto de J.S.)
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Revolução
E cumpriu-se o desejo de
tantos: deu-se uma revolução!
Ou terá sido a revolução?O sangue, a destruição, a desordem? Nada! E os mortos e feridos? Nenhum!
Há revoluções assim. Fascinantes! Os velhos marxistas e os novos nacionalistas, pasmados, de boca aberta, vêem os exércitos partir para onde vieram, sem proferir palavra de ordem. Os que não são uma coisa ou outra, embrulhados no manto da ambiguidade, dormem. Nem deram conta da mudança. Quando despertarem, a revolução já foi.
O Aleixo cego, que vende a lotaria lá pelo bairro, ouve as explicações do Afonso surdo. Sim, este não ouviu, mas viu. Os revolucionários, acérrimos defensores do bem, chegaram de madrugada. Foram a todos os hospitais e destruíram a doença. Todo o tipo de doença. Acabou!
Agora, os doentes estão livres. Livres! A doença foi destruída! Ou desconstruída, é preciso cuidado com os pedaços que circulam, agonizantes, por aí. Pelo que contam os revolucionários, há piquetes no seu encalço. E quando o sol voltar a brilhar, já não existirá resto de doença. Que possa contaminar as gentes
E o mundo olha extasiado para os resultados da revolução.
Os políticos escondem a inveja nas algibeiras do poder e esboçam sorrisos raquíticos.
Há lá revolução mais eficaz do que esta? É o que diz o povo.
Doenças aos milhares foram queimadas
durante a revolução.
(Foto de Jorge Santos)
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Tempo
O Tempo vive num limbo. A
dúvida, a constante dúvida que o seu universo omnipresente guarda nos
escaninhos é complexa: o Tempo é bom ou mau?
Foto de Jorge Santos
Ele conhece bem os defeitos e qualidades;
poucos têm, consigo próprios, tamanha intimidade há tanto tempo. Procura ser
gentil, magnânimo: com ele, tudo cura, tudo passa, tudo melhora, tudo ajuda. É
bom conselheiro. Presente em todas as ocasiões de todos os seres.Uma destas alvoradas, no início dos frios e das chuvas, o Tempo soube que perdera, para sempre, vítima de doença, parte do seu próprio tempo. E sofreu, chorou. E continua nessa agonia que dá dó. Ele, que tudo cura, ou não seja o Tempo, vê-se agora, sozinho, e não há no universo quem lhe conceda o que só ele dá aos outros: tempo.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Zanga
Zangados, o sol e a lua, ameaçam-se. Lançam as mais ferinas expressões. Há burburinho sobre as nossas cabeças, sem darmos conta. Todos sabem que, entre os dois, há uma paixão irrefreável, não assumida. Só nos dias dos santos eclipses, é que trocam beijos à socapa; ambos são demasiados orgulhosos, não confessam nem saciam a paixão. E, por vezes, há uma estrelita mais atrevida, um cometa marialva, que "encostam" demasiado. Pronto, o ciúme aparece veloz, vindo do nada.
E quando desalinham, perdem o encanto, o feitiço. E discutem de língua afiada. Sentindo a desordem emanar, as nuvens ocorrem, para ajudar a pôr fim à luta de palavras entre a lua e o sol.
E quem sofre são os pescadores do molhe, que ficam sem raios de sol, sem luar e com imensas nuvens, que turvam o ambiente e dificultam a tarefa da sua luta com os peixes.
E quando desalinham, perdem o encanto, o feitiço. E discutem de língua afiada. Sentindo a desordem emanar, as nuvens ocorrem, para ajudar a pôr fim à luta de palavras entre a lua e o sol.
E quem sofre são os pescadores do molhe, que ficam sem raios de sol, sem luar e com imensas nuvens, que turvam o ambiente e dificultam a tarefa da sua luta com os peixes.
Amor
Mão na mão, percorremos a distância, iguais aos que correm atrás dos sonhos. Viemos de longe. Tínhamos fome e sede. Sentados à mesa, nas cadeiras metálicas e inconfortáveis da esplanada, serviram-nos cerveja, pão e azeitonas. Todavia, não comemos com o entusiasmo que acompanha os que têm fome. Estávamos ansiosos. Apressados. Olhámos para cima; na varanda do primeiro andar estava, ali mesmo, o motivo de tanta inquietação. Da nossa inquietação. Que fez-nos comer rapidamente e mal.
Pendurado na varanda, como um gato. Sorria . O Amor. Era ele que atirava pedaços de pressa contra nós. Comemos e bebemos com a rapidez dos desesperados a fugir do desespero. E subimos ao primeiro piso. Queriamos agarrar o Amor. Juntá-lo a nós.
Tanta era a rapidez e a ansiedade que, ao pegarmos no Amor, na varanda, descuidámo-nos e deixámo-lo cair. Estatelou-se lá em baixo, junto ao pedal de uma bicicleta de criança que estava encostada à parede. E partiu-se todo!
E nós ficámos debruçados, em agónico choro, a ver um Amor morrer, à porta de um café de estrada.
Pendurado na varanda, como um gato. Sorria . O Amor. Era ele que atirava pedaços de pressa contra nós. Comemos e bebemos com a rapidez dos desesperados a fugir do desespero. E subimos ao primeiro piso. Queriamos agarrar o Amor. Juntá-lo a nós.
Tanta era a rapidez e a ansiedade que, ao pegarmos no Amor, na varanda, descuidámo-nos e deixámo-lo cair. Estatelou-se lá em baixo, junto ao pedal de uma bicicleta de criança que estava encostada à parede. E partiu-se todo!
E nós ficámos debruçados, em agónico choro, a ver um Amor morrer, à porta de um café de estrada.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Livro
Fechou o livro suavemente; há quase três semanas que ele embelezara-lhe os serões, por norma, risíveis e monótonos. Cerrou os olhos, de onde fugiu um lágrima apressada, e recostou-se na velha poltrona de pele. E suspirou. Um lamento melancólico chamado saudade. Afinal, findara uma relação de amizade com um companheiro ímpar. Um livro? Sim, um livro!Tal como as pessoas, único e inimitável.
Abriu os olhos. Devagarinho. Olhou à volta e sobressaltou-se! A saleta estava profundamente alterada. Toda ela era o cenário do capítulo último do livro . Para onde tinham ido os sofás, os armários, as mesas de apoio? Até o abajur grená da tia Natércia tinha desparecido. Agora, via uma enfermaria, de uma tonalidade branca que até cegava, onde dois amigos acabavam de separar-se para sempre. Apertou os olhos com a ponta dos dedos e voltou a abri-los. Ah! Afinal estava lá tudo! A pequena sala voltou à forma original. Ela é que ainda não tinha sido capaz de sair da história que a preencheu por completo, durante as últimas semanas.
Abriu os olhos. Devagarinho. Olhou à volta e sobressaltou-se! A saleta estava profundamente alterada. Toda ela era o cenário do capítulo último do livro . Para onde tinham ido os sofás, os armários, as mesas de apoio? Até o abajur grená da tia Natércia tinha desparecido. Agora, via uma enfermaria, de uma tonalidade branca que até cegava, onde dois amigos acabavam de separar-se para sempre. Apertou os olhos com a ponta dos dedos e voltou a abri-los. Ah! Afinal estava lá tudo! A pequena sala voltou à forma original. Ela é que ainda não tinha sido capaz de sair da história que a preencheu por completo, durante as últimas semanas.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Alegria
Na Rua dos Alegres vive um homem sem sono. Procura o motivo da felicidade dos vizinhos, enquanto estes dormem. Ele, que sofre de insónia permanente, também não consegue alegrar-se, seja com o que for. Ou com quem for. Dizem-lhe que é de não dormir há tanto tempo. Não! Ele sabe. É triste porque gastou toda a alegria que o Criador lhe deixou de herança vital.
Quando essa tragédia o visitou, deixou de dormir. O homem sem sono nunca imaginou que a alegria poderia gastar-se. Hoje, pela noite, vai descobrindo, de casa em casa, a triste realidade da alegria. Gastou a alegria, resta-lhe a insónia. E a cínica coincidência de morar na Rua dos Alegres.
Quando essa tragédia o visitou, deixou de dormir. O homem sem sono nunca imaginou que a alegria poderia gastar-se. Hoje, pela noite, vai descobrindo, de casa em casa, a triste realidade da alegria. Gastou a alegria, resta-lhe a insónia. E a cínica coincidência de morar na Rua dos Alegres.
sábado, 6 de outubro de 2012
Inventar
Há quem invente passados. Grandiosos, eloquentes, heróicos e exímios na arte da suprema felicidade. Todavia, há quem viva preso a um passado desesperante, incapaz de criar cenários enfeitados de cores garridas.
Eu limito-me a inventar o futuro. Com papel, lápis, borracha, régua e esquadro, vou riscando e apagando, riscando novamente. Quando estiver cansado, farto, saturado de riscar e apagar, algo ficará estampado na folha. Um futuro inventado, pois claro. Veremos se coincide com a realidade.
Eu limito-me a inventar o futuro. Com papel, lápis, borracha, régua e esquadro, vou riscando e apagando, riscando novamente. Quando estiver cansado, farto, saturado de riscar e apagar, algo ficará estampado na folha. Um futuro inventado, pois claro. Veremos se coincide com a realidade.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Fuga
Refugio-me no velho lampião que enche de luz mortiça o passeio da cidade; estou aqui dentro, no cerne, onde se dá a explosão que espalha a preciosa luminosidade, apesar de parca, ficando a noite com mais fulgor, com mais vida.
Quando fugi das trevas, abomináveis trevas!, eu que amo a noite, que melhor lugar podia escolher do que o abrigo deste velho candeeiro de rua?
Quando fugi das trevas, abomináveis trevas!, eu que amo a noite, que melhor lugar podia escolher do que o abrigo deste velho candeeiro de rua?
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Partida
De um casamento garboso a uma ruptura sem indulgência, passaram pouco mais de meia dúzia de anos. Uma história que perdeu o enredo e, estranhamente, ou não, nenhum deles conseguiu perceber quem deixou quem, tema aflorado por ambos, diversas vezes, nas rodas de amigos, após ter-se finado a vida a dois.
Ela gracejava : " mostrei o cartão vermelho a um árbitro". De facto, o homem exercia essa actividade desportiva, no futebol. Ele, tirando de todas as algibeiras o orgulho masculino, pusera fim a uma relação que já não o era - dizia.
Hoje, ao fim de dez anos, habitam lugares vizinhos, em cada margem de um rio estreito, a que falta uma ponte para estabelecer união. De noite, as primeiras luzes que se avistam, são as das suas casas, majestaticamente erigidas em cada lado; perto, muito perto da vista, mas longe do resto, o que quer que isso seja. Porque não há ponte. Portanto, só indo de barco poderão visitar-se. Não há barco, mas há um óptimo argumento.
Ela gracejava : " mostrei o cartão vermelho a um árbitro". De facto, o homem exercia essa actividade desportiva, no futebol. Ele, tirando de todas as algibeiras o orgulho masculino, pusera fim a uma relação que já não o era - dizia.
Hoje, ao fim de dez anos, habitam lugares vizinhos, em cada margem de um rio estreito, a que falta uma ponte para estabelecer união. De noite, as primeiras luzes que se avistam, são as das suas casas, majestaticamente erigidas em cada lado; perto, muito perto da vista, mas longe do resto, o que quer que isso seja. Porque não há ponte. Portanto, só indo de barco poderão visitar-se. Não há barco, mas há um óptimo argumento.
Chegada
O enorme casario sorriu, derramando, em simultâneo, uma lágrima marota. Ele estava a chegar e , desta vez, não era para uma visita, mas para tomar posse de um lugar que era seu. E ficar. Até ao fim.
Ninguém soube explicar a razão. Chegou e ninguém o viu! Poderá ter-se escondido no sol e, quando a lua chegou, ter dado um salto para o meio das casas, instalando-se, num ápice, na sua. Ou , simplesmente, o casario estava adormecido sob o imenso calor e não deu conta. O certo é que ele chegou. E, agora, todos sabem. Porque viram as saudades que trouxe, abandonadas à porta de casa. A pressa de chegar era tanta que esqueceu-se de guardá-las na arrecadação.
Ninguém soube explicar a razão. Chegou e ninguém o viu! Poderá ter-se escondido no sol e, quando a lua chegou, ter dado um salto para o meio das casas, instalando-se, num ápice, na sua. Ou , simplesmente, o casario estava adormecido sob o imenso calor e não deu conta. O certo é que ele chegou. E, agora, todos sabem. Porque viram as saudades que trouxe, abandonadas à porta de casa. A pressa de chegar era tanta que esqueceu-se de guardá-las na arrecadação.
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