quarta-feira, 1 de maio de 2013

50 euros




  Teotónio está internado num hospital; não ouve, não fala, não vê. O soro vai alimentando um ser esquálido. Primeiro, a luxúria de possuir, depois a enfermidade frustrante da perda.
  Muitos são os motivos, habitualmente acidentais, que podem colocar um indivíduo, antes varonil, neste estado apoplético.
  Com Teotónio, foi uma situação tão curiosa quanto inacreditável que o levou a um deficit de saúde, quiçá irreversível.
  A partir de determinado momento, no quintal do café de que é proprietário, numa pacata vila transmontana, começaram a aparecer notas de 50 euros debaixo das pedras. Muitas. Cada vez que Teotónio dava um pontapé numa pedra, lá apareciam as notas, novinhas em folha, com se tivessem saído nessa altura de qualquer caixa de banco. Sempre. E cada vez mais.
  Teotónio todos os dias guardava uma mancheia delas em escaninhos inacessíveis a estranhos. Foi gastando. Foi colhendo. E guardando. E melhorando a sua vida e o seu café. Quando faltava o dinheiro, fosse para o que fosse, Teotónio ia ao quintal e com um movimento dissimulado, pontapeava uma das milhares de pedra que por ali havia. As notas de 50 euros saltavam. Viçosas.
  De repente, a incalculável fortuna tornou-se um pesadelo...
  As notas começaram a apresentar uma cor estranha e uma textura quebradiça. Foi o primeiro sintoma de que algo não estava bem.
  Depois, no quintal, as alfaces secaram, as couves perderam as folhas e os frutos cairam , podres, das árvores A situação agudizou-se quando a água para a rega ficou inquinada, com uma tez superficial escura.
  Chamado um especialista, a quem Teotónio contou a sua fortuna e desgraça, avançou  o veredicto: o papel das notas estava a espalhar um vírus que destruía todos os produtos agrícolas e os lençóis de água.
  Teotónio teria de tomar uma decisão. Mas qual? O que antes era alegria, ensombrou-se e o homem acabou por sucumbir à impotência de encontrar soluções.
  Até que, doente, teve de ser internado. À espera sabe-se lá de quê.
  E as notas vão crescendo debaixo das pedras, destruindo tudo em redor.
  Uma desgraça que continua.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Cores



                                                       ( Foto J.S.)

 
  Que vaidosas são as cores! Misturam-se, sobrepõem-se, anulam-se, sempre em busca de um tom mais bonito. Porquê  censurá-las? São iguais ao que tem existência real: em permanente estado de insatisfação. O que não possuem é sempre mais valioso e determinante do que o conteúdo do seu opúsculo vital.
  E não sabem elas que as cores mais bonitas são as que vivem na nossa imaginação.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Refúgio

 
                                         ( Foto J.S)


  Vinha com a pressa dos heróis; estacionou a moto em frente às lombadas e olhou em volta, preocupado, enquanto tirava o capacete. Os livros miraram-no com desdém, pois nunca viram com bons olhos estas fugas esporádicas. Personagem que se preze, jamais abandona a sua história.
  Mas aquele herói é jovem; e desde que herdou a moto do avô, nunca mais teve sossego.
  Nessa noite parecia perturbado em demasia. Lia-se nos seus gestos e no olhar de rima fácil. Na confusa e atabalhoada procura da sua capa.
  Tão confusa foi, que o levou ao equívoco. Na apressada tentativa de regressar à história, atirou-se para dentro do"Solitário". Será sempre um bom refúgio. Sem dúvida.
   O pior vai ser quando o Ionesco der com ele!