quinta-feira, 6 de junho de 2013

Sorte



   E a Sorte virou-lhe as costas. Foi embora.
  Deixou a voz de falsete colada às paredes ansiosas; depois de lançar-lhe uma mirada míope e carregada de desdém, partiu.
  Ele sempre a desejou, à Sorte, com a força de todos os sentidos.
  Femeeiro como é, até esqueceu a frigidez e torpeza da figura que todos querem, sem sequer lhe conhecerem o empinado nariz; que está pendurado num rosto de sorrisos omissos, como num recital de doidos.
  Ego absurdo, vida celibatária, atirou-lhe, como quem liberta um flato:
   - Vou para a enseada dos sonhos adiados. Adeus!
  Ele ficou, ali, parado, a vê-la partir. O desejo esfumava-se com a tortura da despedida consentida.
   - Então, é aquilo a Sorte ?! - Murmurou  com resignação.