sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cores



  Quando o sujeito passa, quem para ele olhe, fica pintado das mais diversas cores. Mulheres, quase todas; homens, muitos. Acabam o dia com o rosto tingido e com a roupa a adoptar colorido diferente do que ostentava de manhã ao sair do armário.
 Mais importante, muito mais!, do que a coloração superficial é a profundidade que as cores atingem. Quem perder alguns minutos a olhá-lo atentamente, até a alma, habitualmente escura ou pintada de branco sujo, ganha uma paleta de mil cores. E, assim, dela irradia uma energia capaz de atraír aquilo a que os optimistas chamam felicidade.
  Quem for atrás dele, pelas ruas estreitas, tão do seu agrado, aperceber-se-á da magia das cores que dele brotam como a água de fontes. Embelezando paredes, passeios, chãos e flores. Só quando o sol se põe, elas vão esbatendo, esbatendo, até desaparecerem.
  Depois, regressa a pálida monotonia. Dias, meses, anos.
  Até ao dia em que ele volte. E volta sempre. Pode demorar , mas volta.

Georges


Até sempre, Georges.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Passado



  A voz cavernosa do Passado perseguia-o; todos os dias, a todas as horas, estivesse acordado ou a dormir.
  Sussurrava-lhe ao ouvido: "O Futuro não existe sem mim!".
  E na imensidão das noites sombrias, ele tentava matá-lo. Ao Passado. A tiro, à faca e até ao esquecimento. Nada!
  O Passado sabia esconder-se muito bem, era perito em ficar atrás, escudando-se em Desejos defeituosos, Ilusões histéricas ou Sonhos ensonados.
  Ambos sabiam que teriam de ajustar contas. E, ao invés do que o Passado dizia, ele teria de o destruir, de o esmagar, para seguir o seu rumo. Até lá, não veria o Futuro. Mas não queria viver sempre num Presente condicional.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Verão




  De olhos fixos no sol que aparecia devagar, partilhámos o silêncio; e ouvimos o som ausente de um violão sem cordas.
  Quando o meu olhar encontrou o teu, o ruído envolveu-nos ainda com mais intensidade.
  Calada, chamaste-me; parado, fui ter contigo.
  Assim nasceu um belo dia de verão.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Arrepio

Foi quando passei as pontas dos meus dedos trémulos ao longo das tuas costas nuas que recebi a ternura melancólica do fim de tarde de verão, ainda  vivia eu num doloroso inverno. O sol ia-se escondendo, tímido e sonhador, atrás do horizonte. Então percebi: a lua era, afinal, apenas um pedaço do nosso céu.