sexta-feira, 14 de junho de 2013

Peso


  O homem tinha o olhar perdido no horizonte e o rosto vincado pelo tempo e pela má sorte. Chegou afogueado, talvez do cansaço;  respirou com alívio ao descarregar no solo o saco de serapilheira que trazia às costas. Pousou-o mesmo em frente ao recepcionista da pensão.
  - Parece pesado, senhor! É a sua bagagem?
  - Não - respondeu o homem - é um amor impossível.
  - Como? Amor impossível?!
  - Sim.
  - Mas...mas...vai-me desculpar..mas não há amores impossíveis. Os amores ou são ou não são. Não acha? - Argumentou o recepcionista.
  -  Este existe. É meu. Está aqui, vê? E é pesado...
  - Então, e que vai fazer com ele, senhor?
  - Ainda não sei. Vai andando nas minhas costas. Até descobrir uma forma de  desenvencilhar-me dele. É cá um peso!

Um comentário:

  1. É cá um peso..., Jorge. Creio que nunca mais se endireitam as costas.

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