quarta-feira, 19 de junho de 2013
Pressa
Estava sentada à mesa do café; pelos gestos e pela inquietação que o seu rosto ostentava, parecia sozinha, mas não estava... não podia estar! Algo haveria de causar-lhe tanta perturbação.
Os dedos finos e graciosos deambulavam entre a chávena vazia e o maço dos cigarros. Quanto ao olhar, parecia um sensor de movimentos, num tom azulado, que varria o espaço entre a porta e a mesa.
Ele veio!
Beijaram-se apressadamente e sairam.
Devido à pressa, esqueceu a caixa dos cigarros em cima da mesa.
Um jovem que transportava, preso aos pulsos, o desemprego, deixou a sua mesa, logo atrás, pegou no tabaco que ela deixara e encaminhou-se para a porta. Assim que chegou à rua, quis tirar um cigarro. Não conseguiu. Um grito vindo do fundo da alma ecoou e quer os transeuntes quer os que estavam dentro do café dirigiram-se ao jovem. Este largara o maço, empalidecera e tremia descontroladamente, encostado à vidraça da montra do café. O seu olhar era de pânico e focalizava-se naquela pequena embalagem de tabaco que, agora, jazia no passeio; de vez em quando, apontava, mas não conseguia articular palavra.
Uma dona de casa, nada desesperada, de meia-idade, encostou o seu carrinho das compras à parede e com o desembararço próprio de quem já viveu muito, pegou no maço, olhou o interior e disse com a calma natural das pessoas maduras:
- Tem lá dentro um Futuro Hipotecado. Mas está morto. Este já não faz mal a ninguém...
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A continuação da personificação de coisas, sentimentos,da vida,de uma forma improvável, um fim tão invulgar sempre aquela imaginação que te é tão peculiar.
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