quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sombra

                                                                                                foto de Jotaesse

 
   Alguém duvidará de que a Sombra alimenta um amor incondicional pelo Sol? Certamente que não. Amor?  Sim amor, ou, vá lá, uma espécie de amor que poucos entendem. Mas será esse amor correspondido? Ora aí está o drama: não, não é. O Sol é um astro egoísta e , se pudesse, não dava qualquer oportunidade à sua leal Sombra de aproximar-se.
  Um destes dias, em que o verão e o inverno andaram em discussão acesa, quase chegando a agredirem-se, o Sol aproveitou a confusão e fugiu à Sombra; esta não o viu durante vários dias. Só por haver dia e noite ela sabia que o seu amado continuava vivo.
  Finalmente, encontrou-o. Brilhava cheio de satisfação; no seu rosto nédio, os olhos miravam cansaço e o nariz esfolado e vermelhusco. Cometeu excessos, afiançavam os outros astros que o conheciam. Alguns diziam tê-lo visto a entrar em vias pouco aconselháveis.
  Ao falar com ele, a Sombra percebeu que ainda estava meio ébrio; aproximando-se, fedia a perfume feminino barato. "Andou sexo por ali" - pensou a companheira de sempre.
  A Sombra, sombria, vestiu luto e fechou o rosto. E passou a andar sempre atrás do Sol. Para toda a parte. Não o largou mais. É a sua Sombra. E, por estranho que pareça, ambos parecem satisfeitos.
   
 

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