quinta-feira, 27 de junho de 2013
Fadista
Na casa ao lado da minha, mora uma fadista. Estranha fadista, quer dizer, as fadistas são sempre estranhas, mas esta era mais estranha ainda.
Não sei onde canta nem quando. E não vale a pena perguntar: não responde. Vim a saber que tem vergonha de dizer. Porquê? Porque canta o fado com o olhar. Logo, nem todos conseguem ouvir, por muito perto que estejam.
Ontem, quando a encontrei, alta ia a noite, sentada na soleira da porta, triste, decidi sentar-me ao seu lado, sobre a pedra fria.
A fadista chorava. Lágrimas grossas, matizados com o azul da maquilhagem, escorriam-lhe pelo rosto até desmaiarem no passeio. Chegadas aí, ganhavam vida. E eu não ouvia, mas via.
Via o fado que a minha vizinha cantava com o olhar.
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Uns têm uma vida de fados, outros são um fado na vida de muitos e fazem da vida um fado
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